30/11/2008

Volcano



A música “Volcano” do último disco do Beck (Modern Guilt) faz referência a Kiyoko Matsumoto, uma jovem japonesa que aos 21 anos de idade cometeu suicídio se lançando na cratera do vulcão do Monte Mihara, na ilha de Izu Oshima. Isso foi em 1933, desde então mais de 944 pessoas (804 homens e 140 mulheres) repetiram seu ato.

Dei uma pesquisada na história, que me chamou muita atenção, mais pela linda leitura que a música propõe do que pelo suicídio em si.

And I heard of that Japanese girl
Who jumped into the volcano
Was she trying to make it back?
Back into the womb of the world

A estrofe acima eu traduzo como:

E ouvi sobre aquela garota japonesa / que pulou dentro do vulcão / Ela estava tentando retornar? / Retornar ao útero do mundo.

Pelo que li Kiyoko não parecia preparada para encarar o fato de deixar de ser uma menina, tornar-se uma mulher adulta. O retorno ao útero, nesse caso ao “útero do mundo”, é uma imagem bem forte e que fica ainda mais poderosa na música, que nesse momento muda de tom, como que fica suspensa por um fio de tensão.

Na estrofe seguinte uma melancólica frase termina a canção de maneira preciosa:

I don't know where I've been
But I know where I'm going
To that volcano
I don't want to fall in though
Just want to warm my bones
On that fire a while

Que traduzo como:

Eu não sei onde estive / Mas eu sei para onde estou indo / Para aquele vulcão / Mas não quero cair / Só aquecer meus ossos / Naquele fogo por um tempo


Foi uma amiga e colega no colégio interno para moças Jissen, em Tóquio, que a ajudou a encontrar o vulcão. Tomito, sua amiga, acompanhou Kiyoko ao topo do vulcão e a viu desaparecer na cratera. Chegando no colégio, Tomito, explicou sua brilhante idéia para as colegas, sem ter idéia de que isso geraria uma onda de suicídios. Tomito morreu alguns meses depois, a causa? Imagino que suicídio também, mas não fica bem claro na matéria do NYTimes.

A música do Beck é muito mais do que esse simples fato, essa curiosidade que estimula até hoje levas de suicidas a esses “suicide points” espalhados pelo mundo. O que fica, pelo menos pra mim, é muito mais a sensação limite de querer buscar esse retorno ao útero, e de ver no vulcão justamente essa imagem poderosa que também que abriga e aquece.
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VOLCANO (Beck)

I've been walking on these streets so long
I don't know where they're going to lead anymore
But I think I must have seen a ghost
I don't know if it's my
illusions that keep me alive

I don't know what I've seen
Was it all an illusion?
All a mirage gone bad?
I'm tired of evil
And all that it feeds
But I don't know

I've been drifting on this wave so long
I don't know if it's already crashed on the shore
And I've been riding on this train so long
I can't tell if it's you or me who's
driving us into the ground

I don't know if I'm sane
But there's a ghost in my heart
Who's trying to see in the dark
I'm tired of people who only want to be pleased
But I still want to please you

And I heard of that Japanese girl
Who jumped into the volcano
Was she trying to make it back?
Back into the womb of the world?

I've been drinking all these tears so long
All I've got left is the taste
of salt in my mouth

I don't know where I've been
But I know where I'm going
To that volcano
I don't want to fall in though
Just want to warm my bones
On that fire a while

09/11/2008

tipos de rabos - página original da Inútil

Breve explicação sobre a origem da revista Inútil

É difícil saber o que nos leva a criar coisas quando somos crianças, a criatividade infantil é um infinitamente mais aberta do que na vida adulta.

Os estímulos e motivos que influenciaram para que eu produzisse cinco números de uma revista com esse peculiar nome permanecem um mistério. Identifico apenas interesses que eu tinha na época, temas científicos de astronomia, zoologia e História Natural, coisas que eu via em revistas em fascículos tais como “Descobrir”, “Mundo dos Animais”, “ Fauna”, além de livros da “Life”, que tinham ilustrações realistas de homens pré-históricos caminhando nas savanas (aquilo me parecia tão real, dava pra se imaginar um neanderthal em busca de comida).

Haviam também as enciclopédias, recheadas de tudo que possa existir ou ter existido. As páginas da Larousse numa edição da década de trinta me encantam até hoje, um verdadeiro gabinete de curiosidades em páginas litografadas.

Esses interesses eu acabava desenhando e apresentando de maneira aleatória, mostrando o que mais havia me chamado a atenção, o que para mim realmente importava no mundo.

A Revista Inútil era basicamente uma dissecação de detalhes e banalidades.

O certo é que mesmo com toda a dedicação conferida a cada revista não parecia escapar a consciência de que aquela compilação de escatologias, pegadas de animais, estruturas de foguetes espaciais e órbitas celestes, tipos de cocô, não deixava de ser apenas fruto de uma curiosidade infantil e sem propósito, banalidades a serviço de uma revista declaradamente Inútil.